Melhorando a experiência nos jogos: Linguagem arcaica
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A interrupção da descrença é uma coisa frágil. Para manter a ilusão de que seu jogador está um um mundo fictício, todas as partes de um jogo de computador têm que trabalhar em harmonia. Felizmente, eu sou um gamer razoavelmente tolerante. Tendo jogado meu primeiro jogo de computador em um Teletivo, eu não me importo com gráficos de baixa resolução ou música barata sintetizada em FM. Se um jogo é bom, ele pode superar essas limitações puramente técnicas. Imcompetência estética, porém, é outra questão. Sou mais ou menos resignado à má atuação - se Hollywood, com sua vasta piscina de dinheiro e talento, não pode fazer nada melhor do que nós vemos num comercial de TV, eu não vejo como poderíamos esperar isso da indústria de games. Arte ruim me incomoda, entretanto, e isso não tem nada a ver com a resolução da tela; veja as velhas aventuras da LucasArts para ver quão bom 320×200 pode parecer se você tiver bons artistas. Mas o que realmente me derruba - o que destrói a fantasia para mim mais rápido que qualquer outra coisa - é a má escrita. Quando um jogo de certa maneira decente de repente roda ou mostra um sentença má escrita, ela retine, como uma calota de automóvel derrubada durante uma sinfonia. Eu sou trazido de volta rapidamente, toda a ilusão se foi, e eu me vejo perguntando como aquilo foi parar lá.
Algumas das piores escritas no entretenimento interativo são encontradaas em role-playing games de fantasia, especialmente aqueles com uma ambientação quase-medieval. A linguagem arcaica é difícil de usar bem, e a menos que você leia um monte de livros antigos, você pode não ter familiaridade com ela. Nesse texto, alguns pensamentos sobre como usar linguagem arcaica em jogos. Isto não é um texto introdutório; é mais uma coleção aleatória de idéias.
Um Leve Toque é Melhor
Se você está trabalhando num jogo ambientado no passado histórico (ao contrário de um mundo de fantasia), e é mais adiantado que algo para 1700, você não deve tentar reproduzir a linguagem realmente falada naquele tempo - não se você quiser fazer um jogo que venda. Há uma razão porque o jogador comum joga jogos de computador ao invés de ler Shakespeare. Linguagem arcaica pode ficar opressiva, não importa quão bem feita ele foi. E apenas porquê as palavras quiçá e samicas são arcaicas enquanto possivelmente ainda estão por aí, isso não é razão para largar as duas últimas e usar quiçá e samicas exclusivamente. Se você tentar encontrar um equivalente antigo para cada palavra moderna em seu texto, você acabará com uma linguagem que soa afetada e repetitiva. Quando na dúvida, é melhor apenas escrever o puro e simples português moderno. Na novela arturiana de Mary Stewart, The Crystal Cave (A Caverna de Cristal), ela usou o inglês moderno quase que exclusivamente, e soa perfeitamente bem. Isso faz os personagens dela parecerem muito racionais e assessíveis, sem nenhum preconceito ou superstição que você poderia esperar dos Bretões da Idade Média, mas eu acredito que esse era o efeito que ela quis.
Em resumo, vá com calma. Considere três versões seguintes da mesma saudação de um camponês a um cavaleiro:
“Salve, leal senhor cavaleiro! E o que trás vossa pessoa para essesse perigoso bosque essa formosa noute? Seriam as histórias de um dragão nas cercanias?”
“Bom dia, senhor cavaleiro! O que o trás para esse perigoso bosque essa noite? Você tem ouvido rumores de um dragão próximo?”
“Ei, cavaleiro! Que cê tá fazendo no bosque à noite? Você procura por aquele dragão que eles dizem que mora por aqui?”
O primeiro exemplo é brega e exaustivo, e de quebra contém erros de usagem (não chamaria um cavaleiro de vossa pessoa - mas nós vamos voltar nisso depois). O terceiro é muito moderno e petulante - se um camponês diz isso, ele provavelmente está usando seu boné de baseball virado para trás e carregando um skate. O segundo é uma conciliação razoável entre a língua arcaica e a legibilidade - um leve toque.
Evite Gírias e Idiomas Modernos a Qualquer Custo
Nada arruina a ilusão de antiguidade em um jogo mais rápido que uma palavra ou expressão que não pertence a ele. Se um personagem diz, “Renda-se, patife, ou receberá uma punição real,” seu oponente não deveria responder, “Oh, sim? Você e que exército?” ou “Manda ver, mano.” A gíria é uma poderosa marca cultural, extremamente atada ao tempo ou lugar onde ela se originou. O termo claim-jumper (fica algo como “mineiro desonesto”, irmão, mas preferi manter o original), por exemplo, imediatamente sugere a corrida do ouro na Califórnia, e isso poderia soar completamente errado em um RPG Medieval - mesmo que roubar a propriedade de minas fosse parte importante do roteiro. E se você quis trocar a gíria moderna por seu equivalente arcaico, há chances de que não ficaria bom mesmo que você pesquisasse como deveria ser - um jogador moderno não entenderá gírias Elizabetanas.
Infelizmente, isto tende a resultar em jogos que soam bastante rigídos e sem humor. Não há muito que pode ser feito sobre isso. Como a gíria, o humor está firmemente atada à sua própria cultura, e não se traduz bem através dos séculos. Muito do humor de Shakespeare é sobre homens chifrados e outras noções de indecências sexuais do século XVII, e isso apenas não soa engraçado ao ouvido moderno. Mas é melhor soar sem humor que soar totalmente errado; ao menos a falta de humor não destrói a supensão da descrença.
Como usar Tu, És, e Teu
A maior parte das línguas européias, tanto as derivadas do Latim como o Francês como as Germânicas como o alemão, têm duas formas da palavra você. Uma forma é o plural, usado para falar para mais de uma pessoa: Sie em alemão, vous em francês, vós em português. A outra forma é o singular, usado para falar a um simples indivíduo: du em alemão, tu em Francês, tu em português (Falco, eu podia traduzir como “vocês” e “você”, no caso do português, mas, mais a frente, o autor se refere a essas palavras como usadas em situações “polidas”, então resolvir usar “vós” e “tu”). O inglês moderno não tem esse conceito. A palavra you é usada tanto para indivíduos como para crupos, exceto no inglês vernáculo do sul americano, onde you all ou y’all é usado para grupos. Porém, o inglês já teve um “you,” (você) no singular: thou (tu), e um “you” (você) no plural: ye (vós).
O único lugar onde ye (vós) e thou (tu) ainda são ouvidos é na igreja, e particularmente as igrejas que usam a Versão King James da Bíblia. Thou (tu) and ye (vós) imediatamente transmitem um senso de formalidade e antiguidade, o que os torna um método excelente de dar uma fala “antiquada” aos seus personagens - desde que você não exagere. Em um jogo, eu sugiro que você as reserve para ocasiões particularmente cerimoniosas: agraciando um personagem com uma honraria, enviando-o em uma busca perigosa para salvar o reino, ou setenciando-o a morte.
Em adição à regra de usagem sobre o número de pessoas para quem você está falando, há outra importante regra que geralmente ultrapassa a primeira. O pronome no plural (ye, Sie, vous e vós) é usado especificamente em situações “polidas” ou “formais”, mesmo que você as esteja endereçando apenas a uma pessoa. Por exemplo, você poderia usar ye (vós) a alguém socialmente superior, um estranho, ou qualquer um para quem você queira ser polido. O pronome no singular (thou, du, tu e tu) é chamado de “familiar” ao contrário do formal, e é usado para pessoas socialmente inferiores, crianças, animais, e amigos próximos (no caso, irmão, não seria bem o “tu”, mas o você… maaaas…). Se você ler Shakespeare, você notará que seus nobres sempre usam thou (tu) ao falar com os cidadãos, que sempre usam you (você) em retorno. Antigos Quakers da Pensilvânia costumavam usar thou (tu) mesmo no século XX, porque eles acreditavam que todas as pessoas eram iguais na visão de Deus, e eles rejeitaram a noção de classes sociais.
Nas linguagens européias de hoje, se uma amiga pede para você chamá-la pelo pronome familiar ao invés do pronome formal, ela está honrando você, dando a você uma intimidade não permitida a estranhos. É algo como dizer a alguém que está OK chamá-lo pelo primeiro nome, mas mais pessoal.
Se você vai usar thou (tu) e seus relativos, é importante esclarecê-los. Thou (tu) tem suas próprias formas verbais, as quais normalmente terminam com a letra T, ou em -est (note, Falco, que em inglês é mais “t”, já no português é mais o “s” - Thou Hast = Tu Tens ou thou art = Tu és saca?). Aqui vão alguns exemplos:
To be (Ser ou estar) (presente): I am (Eu sou/Eu estou), thou art (tu és/tu estás), he is (ele é/ele está), we are (nós somos/nós estamos), ye are (vós sois/vós estais), they are (eles são/eles estão).
To be (Ser ou estar) (passado [pretérito imperfeito]): I was (Eu era/eu estava), thou wast (tu eras/tu estavas), she was (ela era/ela estava), we were (nós éramos/nós estávamos), ye were (vós éreis/vós estáveis), they were (eles eram/eles estavam).
To be (Ser ou estar) (subjuntivo): If I were (Se eu fosse/Se eu estivess), if thou wert (se tu fosses/se tu estivesses), if he were (se ele fosse/se ele estivesse), if we were (se nós fôssemos/se nós estivéssemos), if ye were (se vós fôsseis/se vós estivésseis), if they were (se eles fossem/se eles estivessem.
To do : I do, thou dost, it doth, we do, ye do, they do. (nota: irmão, Do é um auxiliar no inglês… então achei melhor não traduzir. Indica ação: Como “Do you wanna dance?” (Você quer dançar?), “Yes, I do!” (Sim, eu quero!) ).
To plot (Conspirar): I plot (Eu conspiro), thou plottest (tu conspiras), he plotteth (ele conspira), we plot (nós conspiramos), ye plot (vós conspirais), they plot (eles conspiram).
Note que no último caso, a terceira pessoa do singular (he (ele), she (ela), ou it (ele/ela - objetos ou animais) ) é usado com -eth no fim do verbo. -est e -eth são, às vezes, erroneamente trocados, mas eles não são trocáveis. -est é para a segunda pessoa, e -eth para a terceira.
Thou (tu) nunca é usado para se dirigir a grupos, mesmo que seja um grupo de amigos intímos. Ele é sempre singular. Para grupos, use you (vocês) ou ye (vós).
Thee (te/ti) é para thou (tu) como him (nesse caso, seria “você”) é para he (ele). Ele nunca é usado como sujeito de uma sentença, apenas como objeto. (Você diz “Thank thee” (Te agradeço) porque é realmente mais curto que “Eu te agradeço.”) Thy (teu) e thine (também fica como “teu”), monstram possessão, funcionam justo como my (meu) e mine (outra vez, fica como “meu”).
Eschew Ye Olde Corny Pub Sign
O uso de ye ao invés de the nas placas antigas não é, na verdade, a palavra ye (vós) - é realmente a palavra the. O inglês já teve três letras que desapareceram, e uma delas, chamada “thorn,” foi usado para o som T-H falado (como em this e that, mas não thick e thin). Porém, pelo alfabeto romano não ter a letra thorn, por um breve período a letra minúscula y foi impressa no seu lugar, assim the ficou impressa como ye.
Eu não usaria essa convenção se fosse você. É perfeitamente legítima, mas infelizmente, ela tem sido usada excessivamente em negócios tentando criar um sentido fácil de antiguidade, como “ye olde English pub” no parque temático americano. A mensagem que ela transmite “essa é uma armadilha idiota para turistas.” Você poderia escapar disso em textos longos se você for consistente sobre isso, mas pessoalmente eu acho que o risco é muito grande. Além disso, considerando que Y só substituiu torn após a invenção da prensa, é na verdade um uso renascentista, e não medieval.
You Shall Use Shall Properly (Você Deve usar “Deve” Corretamente)
Shall é raramente ouvido no inglês americano, apesar de que os britânicos ainda usam-no bastante. Na maioria dos casos ele simplesmente foi trocado por will para descrever um evento futuro. Porém, seu significado é, de fato, um pouco mais sutil. Shall é usado para comandos, por isso mesmo é encontrado nos Dez Mandamentos, e também especificações (”the playing field shall be 100 yards long” - “o campo deve ter cem jardas de lartura”). Pelo escritor estar falando com autoridade, shall transmite um senso de formalidade. Você pode usá-lo para dar instruções ao jogador. Imagine um rei enviando o jogador para uma busca, e começando com algo como, “Thou shalt take this magic sword of thermonuclear explosions+2, and…” (”Tu deves pegar esta espada das explosões termonucleares+2, e…”).
Considerando a Origem das Palavras
O inglês é derivado do Anglo-Saxão e do Francês Antigo, o que significa que o inglês tem um vocabulário maior que o de muitas outras línguas. Se há duas palavras que significam a mesma coisa, como start (começar) e commence (iniciar), muitas vezes é porque uma é do Anglo-Saxão e a outra do Francês Antigo. As palavras do Francês Antigo foram trazidas pelos novos senhores normandos da Inglaterra após a invasão de 1066, como um resultado, elas foram associadas à aristocracia. Elas ainda parecem um pouco pomposo quase mil anos depois. (Qual é mais formal, start firing (comece a atirar) ou commence firing? (Ah… inicie o ataque (inicie os tiros ia ficar estranho pacas) ) ). Palavras Anglo-Saxônicas, por outro lado, são simples e curtas, e soa como a fala clara. Você pode usar isto para criar um efeito psicológico sutil no ouvinte. Considere a seguinte passagem ativa de um dos discursos de Winston Churchill:
“We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills, we shall never surrender.” (”Nós devemos lugar nas praias, nós devemos lutar nos campos de aterrissagem, nós devemos lutar nos campos e nas ruas, nós devemos lutar nas colinas, nós devemos nunca nos render).
A única palavra na sentença inteira que vem do Francês Antigo é surrender (render). Todo o resto é puro Anglo-Saxão. Churchill estava usando a linguagem inclusivamente, para unir sua nação num tempo de perigo terrível. Ele escolheu palavras que todos os seus ouvintes, mesmo os menos alfabetizados, “pegariam” imediatamente. Fazer isso deliberadamente requer muita atenção, e os escritores de jogos de computador raramente têm a oportunidade de dedicar tanto tempo ao seu trabalho. Entretanto, se você gosta de investigar palavras e você quer se esforçar, isso pode ser muito agradável. Dê a sua nobreza as longas palavras de origem latina, e dê aos camponeses as curtas Anglo-Saxônicas.
Isto é, naturalmente, apenas a ponta do Iceberg (e isto é outro idioma que você não deve usar). Eu sequer toquei em coisas como reverter a ordem das palavras para fazer uma pergunta (”Conhece você algum mago?”) ou os vocabulários especializados de profissões extintas. Se você tem seriedade sobre isso, você pode passar muito tempo aprendendo sobre a diferença entre um noivo e um moço de estrebaria, ou um ferreiro e um ferrador. Um dos melhores meios de aprender linguagem antiquada é ler novelas históricas escritas lá para o fim do século XIX. Autores como Robert Louis Stevenson e Sir Arthur Conan Doyle (esse aqui é um puta autor, irmão!) eram mestres em criar uma prosa altamente legível com um distinto sabor romântico.
Como sexo e violência, a linguagem arcaica é um poderoso tempeiro, para ser salpicado levemente, e não ser para se enfiar um quilo dela. Você não tem que, necessariamente, usá-la. Mas se você fizer, e você fizer isso bem, seu jogo será mais rico, mais profundo, e melhor por isso.
Escrito por Ernest Adams
Traduzido por Josivaldo









